O Fim da Era do Empreendedorismo de Palco – Repost

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Segue ótima leitura por Rafael Lamardo publicado no LinkedIn

Nas últimas semanas no Brasil falou-se muito sobre o desmascaramento de Bel Pesce, figura que ficou conhecida pela alcunha de “Menina do Vale”, numa referência à sua atuação e presença aqui nos Estados Unidos, mais especificamente na região do Vale do Silício.

Na verdade Bel Pesce é tomada como bode expiatório do fenômeno denominado “Empreendedorismo de Palco” – modelo que se esgotou ao longo dos últimos anos, e que tende a sucumbir em curto prazo, por diversas razões. Não apenas pelo lado de empreendedores que falam muito e entregam pouco, mas também por questões estruturais do mercado, assim como pela mudança na forma de se conectar os empreendedores e o capital.

Moro nos EUA e lecionei por muitos anos na área de empreendedorismo digital nos principais cursos de MBA do Brasil, e me considero um dinossauro da Internet. Compilo algumas percepções sobre o momento atual do empreendedorismo no Brasil e nos EUA.

O Mercado Mudou

Primeiramente há uma mudança estrutural do mercado de startups. Nos últimos anos, o efeito manada de grande parte da sociedade em geral – motivada em geral pela ilusão de um enriquecimento fácil e rápido – criou um ambiente com sobre oferta de ideias e startups e dificuldade de se enxergar com clareza a dinâmica e oportunidades do mercado.

Soma-se ainda o fato do modelo tradicional de aceleração de startups começar a ser questionado, além de mostrar sinais de ineficiência diante de uma nova realidade competitiva, e de um mercado mais maduro, em grande parte já ocupado pelos players atuais.

O Modelo Tradicional de Pitch está Falido

Uma segunda questão se refere ao modelo tradicional de elevator pitch. O modelo tradicional de pitch está falido para conseguir um investidor para o seu negócio. Como show business tem o seu valor, e existe um aprendizado a cada vez que é refinado junto a um interlocutor. Mas tenha em mente que o seu pitch é mais importante para ter percepções e feedbacks sobre o seu produto, do que para conseguir um investidor para a sua ideia.

É mais provável conseguir um aporte para sua startup com base em relacionamento construído através de networks formais ou informais do que em um pitch genérico. Por exemplo, através da construção de redes com pessoas que atuam no segmento que você pretende atuar.

Anjos Não Existem

Não existem anjos investidores. O que existem são Venture Capitalists, isto é, pessoas que estão dispostas a assumir um alto risco por investir em negócios em fase inicial. Este investidor não está preocupado com a sua realização profissional ou ajudá-lo a desenvolver a ideia dos seus sonhos, mas sim em ganhar o máximo possível dentro do seu plano de retorno.

Uma coisa importante que aprendi aqui no Vale do Silício é que investidores querem ter os empreendedores por perto, mas não necessariamente investir em suas empresas.

Só a Tração Importa

Investidores não estão mais interessados apenas em uma boa ideia com uma boa equipe. Uma vez que o mercado está inundado de boas opções, você provavelmente só conseguirá um investidor se sua empresa mostrar “tração”, que é o principal conceito por trás do empreendedorismo nos dias de hoje.

E é a combinação de alguns elementos que vai determinar a tração de uma startup. Mas em resumo, podemos considerar que a tração significa a capacidade de uma empresa gerar receita de forma orgânica e estruturada, sem o uso intensivo de capital para aquisição de clientes, por exemplo. Isto é, não basta apenas trazer os usuários; você deve mostrar uma base de usuários fidelizados e recorrentes, para ser considerado de fato por um fundo de investimento.

Recall de uma Geração

Temos ainda uma geração que está mais preocupada em “parecer ser” do que efetivamente “ser”. Sua grande habilidade em informar (ou desinformar), lidar com as redes sociais e com a dinâmica da vida digital, fez com que esquecessem do mais importante, que é o “entregar”, “fazer acontecer”.

É possível perceber euforia e idiossincrasias semelhantes às vividas na bolha das empresas pontocom de 2001. Sobre-oferta, saturação de mercado, ceticismo e contas que não fecham. Mas vale a pena lembrar que foi necessário o fim desta primeira onda para a Internet renascer a partir de 2005, com o surgimento dos sites de redes sociais, potencializada pela popularização do acesso à Internet através dos celulares nos anos seguintes.

Na verdade o mundo nunca acaba. O que acaba é um mundo velho para emergir um novo mundo. Por isso vejo com bons olhos o fim desta fase e o surgimento de um novo momento de empreendedorismo. A carreira do empreendedor é construída com muito trabalho e geralmente longe dos holofotes. Desde criança ouvi meu pai dizer que empreender é 1% de inspiração e os outros 99% de transpiração. E os investidores sabem disso.

Prof. Rafael Lamardo, aprendiz em modo beta permanente, vive em São Francisco (EUA)

 

3 comentários sobre “O Fim da Era do Empreendedorismo de Palco – Repost

  1. Ótimo artigo. Agradeço sua contribuição de alguém que tem experiência e o pé no chão. O fenômeno Bel Pesce assim.como outros gurus do marketing digital sempre os vi com reserva, pois enxergava neles exatamente o que analisou no seu artigo. Por isso o parabenizo, uma vez que o efeito manada cega muita gente.

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